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Mostrando postagens de 2026

O aplauso de hoje, o colapso de amanhã

Na Roma Antiga, a fórmula era simples: comida e espetáculo para distrair o povo enquanto os problemas reais apodreciam nos bastidores. O nome disso é “Pão e Circo”. Não é apenas um truque histórico, é uma tentação permanente do poder público quando governar dá mais trabalho do que entreter. Avançamos dois mil anos e o roteiro segue assustadoramente atual. Em vez de planejamento urbano, saúde, mobilidade e infraestrutura, parte da política moderna prefere luzes, palcos e selfies. A lógica é cruel: obra não dá curtida, hospital não viraliza, drenagem não rende aplauso imediato. Show, sim. Em Ribeirão Preto, o sintoma é evidente. O prefeito parece mais empenhado em divulgar eventos e atrações musicais do que em apresentar entregas estruturais que realmente mudem a vida da população. A cidade vira cenário, não projeto. O governo vira produtor de eventos, não gestor público. O problema é que buraco não se tapa com refrão, fila no posto de saúde não anda ao som de guitarra, e alagamento não ...

A política como espelho (e desculpa) da sociedade.

Dizer que a política é o reflexo do povo soa ofensivo para muitos, mas talvez doa exatamente por ser verdade. É confortável apontar o dedo para políticos corruptos, oportunistas e hipócritas enquanto, no dia a dia, se pratica a mesma cartilha em versão doméstica. O cidadão se revolta com desvio de verba pública, mas acha normal usar um cargo, amizade ou influência para furar regras. Critica o nepotismo no governo, mas tenta empregar um parente “porque ele precisa”. Condena privilégios, desde que não mexam nos seus. Essa indignação seletiva é uma das maiores farsas do debate público. Exige-se ética irrepreensível de quem está no poder, enquanto se relativiza qualquer regra quando ela atrapalha interesses pessoais. O famoso “todo mundo faz” vira álibi moral. No fim, cria-se uma sociedade que odeia políticos, mas ama os atalhos que os produzem. Políticos não caem do céu nem brotam do inferno: eles saem do mesmo ambiente social que normaliza o jeitinho, a esperteza e a vantagem individual ...

Bora trabalhar?

Desde janeiro de 2025, o prefeito de Ribeirão Preto, Ricardo Silva, eleito pelo PSD, está à frente da administração municipal; mas seu comportamento em público tem chamado atenção por um padrão que mais parece continuidade de campanha eleitoral do que gestão propriamente dita. Em vez de focar em apresentar cronogramas, metas claras ou relatórios de execução de governo, o prefeito tem repetido com frequência discursos repletos de promessas genéricas, reforçando um discurso de promessa permanente em cada entrevista e evento que concede. Essa postura motivou críticas de moradores e observadores políticos, que reclamam da falta de objetividade em compromissos assumidos. Um dos exemplos recentes ocorreu na UBDS da Vila Virgínia , onde o prefeito visitou a unidade e demonstrou surpresa com o estado precário de conservação do prédio (uma realidade que já existia há anos, inclusive antes de sua gestão). No local, ele gravou um vídeo prometendo aos pacientes a construção de uma nova unidade de ...

A teoria das janelas quebradas

É um conceito da criminologia urbana formulado na década de 1980 por James Q. Wilson e George Kelling. A teoria parte da ideia de que pequenos sinais de desordem em um ambiente urbano, quando ignorados, transmitem a mensagem de abandono e ausência de controle, estimulando comportamentos que desrespeitam normas sociais. Uma janela quebrada que não é consertada, por exemplo, simboliza que aquele espaço não é cuidado, abrindo caminho para a deterioração progressiva da ordem social. As causas desse fenômeno estão relacionadas principalmente à negligência do poder público, à falta de manutenção dos espaços urbanos e à fragilização do vínculo entre a população e o ambiente em que vive. Pichações, lixo acumulado, iluminação precária e vandalismo são sinais visíveis que reduzem a sensação de pertencimento coletivo e enfraquecem o controle social informal. Quando essas pequenas infrações se tornam comuns, cria-se um ambiente propício à repetição e ao agravamento das condutas inadequadas. Os pro...

Rodízio? Não seja burro!

A recorrente defesa da implantação de um rodízio de veículos em Ribeirão Preto sempre citada por ribeirãopretanos que desconhecem o tema surge, quase sempre, como resposta imediata aos congestionamentos cada vez mais frequentes. A lógica parece simples: menos carros circulando, menos trânsito. No entanto, essa solução aparente ignora a complexidade da mobilidade urbana e tende a atacar apenas os sintomas, não as causas do problema. "Por favor, não seja burro!" Experiências em outras cidades mostram que o rodízio raramente reduz o número total de veículos a médio e longo prazo. Muitos motoristas passam a adquirir um segundo carro, geralmente mais antigo e poluente, apenas para contornar a restrição. Outros ajustam horários ou rotas, concentrando ainda mais o tráfego em determinados períodos. O resultado é a manutenção dos congestionamentos, acompanhada de novos problemas, como aumento da frota, maior desigualdade social (já que a medida penaliza quem não pode comprar outro veí...

A cidade fora da bolha digital - #Questionamentos

E m Ribeirão Preto, a gestão municipal parece ter confundido governo com palco e política pública com algoritmo. A cidade é administrada cada vez mais a partir das redes sociais, onde a prioridade não é resolver problemas reais, mas agradar um eleitorado fiel, barulhento e sempre pronto a reagir com curtidas e aplausos virtuais. Fora dessa bolha digital, porém, está a maior parte da população (aquela que enfrenta diariamente trânsito caótico, transporte coletivo precário e um crescimento urbano sem planejamento). Enquanto vídeos bem editados e discursos otimistas dominam os perfis oficiais, projetos estruturantes seguem engavetados. Leis essenciais para a mobilidade urbana, o ordenamento do território e o planejamento de longo prazo simplesmente não rendem o mesmo engajamento que postagens calculadas para agradar seguidores. E, assim, são ignoradas. Obras ficam pelo caminho, estudos técnicos não avançam e a cidade paga a conta da omissão. A gestão parece governar para quem comenta, com...