Na Roma Antiga, a fórmula era simples: comida e espetáculo para distrair o povo enquanto os problemas reais apodreciam nos bastidores. O nome disso é “Pão e Circo”. Não é apenas um truque histórico, é uma tentação permanente do poder público quando governar dá mais trabalho do que entreter. Avançamos dois mil anos e o roteiro segue assustadoramente atual. Em vez de planejamento urbano, saúde, mobilidade e infraestrutura, parte da política moderna prefere luzes, palcos e selfies. A lógica é cruel: obra não dá curtida, hospital não viraliza, drenagem não rende aplauso imediato. Show, sim. Em Ribeirão Preto, o sintoma é evidente. O prefeito parece mais empenhado em divulgar eventos e atrações musicais do que em apresentar entregas estruturais que realmente mudem a vida da população. A cidade vira cenário, não projeto. O governo vira produtor de eventos, não gestor público. O problema é que buraco não se tapa com refrão, fila no posto de saúde não anda ao som de guitarra, e alagamento não ...
Dizer que a política é o reflexo do povo soa ofensivo para muitos, mas talvez doa exatamente por ser verdade. É confortável apontar o dedo para políticos corruptos, oportunistas e hipócritas enquanto, no dia a dia, se pratica a mesma cartilha em versão doméstica. O cidadão se revolta com desvio de verba pública, mas acha normal usar um cargo, amizade ou influência para furar regras. Critica o nepotismo no governo, mas tenta empregar um parente “porque ele precisa”. Condena privilégios, desde que não mexam nos seus. Essa indignação seletiva é uma das maiores farsas do debate público. Exige-se ética irrepreensível de quem está no poder, enquanto se relativiza qualquer regra quando ela atrapalha interesses pessoais. O famoso “todo mundo faz” vira álibi moral. No fim, cria-se uma sociedade que odeia políticos, mas ama os atalhos que os produzem. Políticos não caem do céu nem brotam do inferno: eles saem do mesmo ambiente social que normaliza o jeitinho, a esperteza e a vantagem individual ...